Qui, 04 de Março de 2010 13:38
Tania Santor
Na manhã do dia 8 de janeiro de 2002, o que parecia ser mais uma viajem de férias para ver o namorado em Ponta Grossa se tornou a maior mudança da vida de Greyce. Na época, com 19 anos, ela cursava Farmácia em Ponta Grossa. A viajem nem bem havia começado, nas proximidades de Ampére, o carro em que Greyce viajava com seus tios e uma prima sofreu um acidente. Ela fraturou as vértebras C5 e C6 ocasionando assim uma lesão na medula deixando-a sem os movimentos. Foi a partir daí que Greyce teve que reaprender a fazer as coisas que ela gostava e também aprender como era a vida de uma pessoa tetraplégica.
Uma garota de 19 anos que teve que enfrentar seus problemas como uma pessoa adulta, e redescobrir o quanto a vida pode ser diferente partindo quando não se pode mais andar. “Eu fiz a cirurgia com a esperança de depois de algum tempo voltar a andar, ninguém chegou e me falou: você ficou tetraplégica, e eu também não perguntei. Como eu era leiga no assunto eu não acreditava que ia ficar na cadeira de rodas, eu acreditava que depois da cirurgia era esperar um pouquinho e voltar a andar. Eu achava que quem estava na cadeira de rodas era porque nascia com problema, era idoso, ou porque havia quebrado uma perna ou algo do tipo. Eu era completamente leiga no assunto”.
A partir daí, Greyce começou a entender o que estava acontecendo. Ela buscou vários tratamentos em outros estados, logo após o acidente ficou cerca de um mês no hospital Sarah Kubitscheck, em Brasília, onde conseguiu entender melhor o que estava acontecendo, e também ficar mais conformada, já que lá haviam mais pessoas com as mesmas dificuldades. A troca de experiências fez com que ela crescesse cada vez mais, e tivesse mais forças para superar aquele obstáculo.
Em Brasília, começou a fazer coisas que antes não conseguia sozinha, como comer, usar o computador e escovar os dentes. Greyce já conseguia ver a situação com outros olhos. Após a primeira semana de aulas o resto do seu tempo foi dividido entre fisioterapia e terapia ocupacional.
Após a ida a Brasília, Greyce percebeu que por um bom tempo teria que ficar na cadeira de rodas e só dependia dela ter uma vida normal ou não. “Eu fiquei muito iludida com fisioterapia nessa época, fiquei um ano em são Paulo só fazendo fisioterapia. Eu ia de clínica em clínica, com aquela esperança de que a fisioterapia me faria voltar a andar. Porém chegou uma hora que eu vi que eu podia ficar fazendo fisioterapia, 24 horas por dia, que eu não voltaria a andar”.
A partir desse momento Greyce decidiu retomar a sua vida, voltou a cursar a faculdade, agora em São Paulo, e começou a fazer aulas de teatro, onde fez novos amigos cadeirantes e começou a sair mais à noite e fins de semana, ir para teatro, cinemas e shoppings. Finalmente começou a viver novamente.
JNT – Como foi a volta e adaptação da vida na cidade pequena?
Greyce - Para quem vivia naquela rotina agitada de estudar, fazer teatro e sempre sair em finais de semana foi uma mudança bastante grande. Aqui é tudo muito mais calmo, tranqüilo. Eu sempre falo que a vida aqui é muito mais fácil, apesar de às vezes não ter muita opção do que fazer, aqui ainda é bem melhor, a qualidade de vida é outra. Aqui tem muita facilidade, lá, por exemplo, se estragou a televisão é um mês até vir um técnico e resolver o problema. Além disso, aqui eu tenho muitos amigos, as amizades é a melhor parte! Lá eu também tinha, mas pra se ver é muito complicado, tudo é muito longe, então geralmente só nos víamos nos fins de semana e no teatro. Aqui é muito mais fácil, apesar de muitos dos meus amigos morarem em Cascavel, a gente sempre acaba se reunindo, somos muito mais próximos.
JNT – Como foi o início da vida profissional?
Greyce -Bom, eu brinco que praticamente nasci dentro da farmácia (risos). Minha família tem farmácia há mais de 30 anos. Então muita gente já me conhecia na cidade, isso ajudou bastante. Mas ainda acontece muito das pessoas darem preferência à minha vó e minha mãe, que já trabalham há muito mais tempo e então já adquiriram mais confiança de cada um, o que eu acho absolutamente normal e respeito muito.
JNT – Quais as dificuldades você ainda encontra?
Greyce - O que eu mais estranho até hoje é que praticamente em todos os lugares que eu vou, sempre chega uma pessoa que vem falar comigo e me dar os parabéns por eu estar ali, por eu sair de casa. Todo mundo pensa: “nossa que legal, ela sai de casa”, e eu estranho muito essa reação, porque pra mim isso é super normal, eu continuo levando minha vida como antes. Eu brinco que não é nem um direito, é um dever meu sair e continuar fazendo as coisas que fazia antes, eu continuo a mesma pessoa, com os mesmos gostos e as mesmas vontades. Acredito que isso aconteça por eu ser a primeira que eles estão vendo. Esse é o mal de cidade pequena. As pessoas ainda não acostumaram com algo que hoje é muito normal. Às vezes as pessoas dizem mais, “tão bonita e na cadeira de rodas”, não é assim, essas coisas não escolhem se é bonita, feia, pode acontecer com qualquer um, velho, jovem, criança. Mas apesar de tudo eu jamais condeno essas pessoas, na época eu também não sabia nada, e muitas pessoas ainda não tem esse conhecimento, mas eu continuo a mesma pessoa, então é normal que eu esteja nos lugares e que eu esteja fazendo as coisas.
JNT - Você se considera uma pessoa feliz?
Greyce - Eu me considero uma pessoa muito feliz, com certeza. Se eu pudesse escolher, hoje eu estaria andando com a experiência que eu adquiri com tudo que eu já passei. No começo com certeza, foi muito difícil, eu fiquei triste, me desesperei, mas com o tempo eu aprendi que eu sou capaz, e pra tudo existe solução, só não podemos desistir.
JNT – Como é seu relacionamento com a família?
Greyce – Eles sempre me apoiaram muito, sempre estiveram do meu lado, e nunca me deixaram desanimar. Na época em que eu estava no hospital foi uma parte bem complicada, eu tinha minha irmã bem novinha, e ela viu a irmã saindo de casa de um jeito, andando, e voltando pra casa em uma maca, em uma cama de hospital. As poucas evoluções que eu fui tendo, foi ajudando a gente a crescer, eles nunca me trataram com diferença, nunca me paparicaram. O que acontece às vezes, é uma superproteção, não na parte psicológica, mas na parte física, minha mãe por exemplo, se preocupa muito em sempre ter alguém comigo, que possa me ajudar com a cadeira se eu precisar, então quando eu vou pra algum lugar ela acaba preferindo sempre ela me levar pra evitar algum transtorno.
JNT – E o namoro como ficou?
Greyce – Meu namoro da época do acidente terminou quando eu fui morar em SP, acabamos nos distanciando. Depois eu namorei quase dois anos. No começo tudo foi uma descoberta. As pessoas não sabiam se eu poderia ou não ter um relacionamento “normal”. Até mesmo os meus amigos, muita gente vinha me perguntar se eu podia namorar, se eu podia ter filhos e tudo mais. Quando comecei namorar ele também não sabia, aos poucos fomos criando uma intimidade e descobrindo tudo juntos. Lidávamos muito bem com as dificuldades, e aos poucos fomos nos adaptando e aprendendo um com o outro. Foi uma fase muito importante pra mim, posso dizer que quebrei uma barreira muito importante. Ajudou muito na minha auto-estima, tirei da cabeça o medo que eu tinha de que as pessoas pudessem não gostar de mim pelo fato de estar numa cadeira de rodas. Hoje eu sei que eu tenho condições suficientes pra namorar e ser muito feliz com alguém.
JNT – Você pensa em casamento?
Greyce - Eu penso nisso como qualquer outra pessoa, eu não sei se eu quero casar e ter filhos, mas não por estar na cadeira de rodas, mas sim porque acho que hoje em dia ta muito difícil ter um relacionamento estável, encontrar alguém legal, em que se possa confiar de verdade. Claro que eu tenho aquele sonho de casar e ter filhos, como toda mulher, mas confesso que tenho medo. Primeiro de tudo preciso encontrar alguém que me passe uma confiança legal, aí sim vou pensar no assunto. Uma coisa que eu aprendi é que muitas vezes as pessoas tem um certo “medo”, as vezes as pessoas me olham e não se aproximam porque tem medo por não saber como agir, as pessoas não tem preconceito, o que elas tem é falta de informação.
JNT - Como é a infraestrutura nas ruas e locais públicos para um cadeirante?
Greyce - No interior é mais difícil, principalmente por as pessoas não estarem acostumadas em ver cadeirantes nas ruas, então ainda não existe muito essa preocupação. Aqui em Planalto são pouquíssimos os lugares em que você vê rampas, só em bancos ou estabelecimentos públicos, quando tem. As calçadas não são rebaixadas, são cheias de árvores e muitas vezes cheias de buracos. Então se eu preciso ir em uma loja, por exemplo, sempre preciso de alguém comigo, pois a maioria dos locais tem aquele degrauzinho básico na entrada. Em cidades maiores, como quando eu morava em SP, essa preocupação, apesar de ainda pequena, já é um pouco mais evidente. Mas ainda falta muito pra gente poder sair de casa despreocupada, sem ter que pensar se vai ter escada, se eu passo na porta ou se vou poder usar o banheiro por exemplo. Acredito que as pessoas estão começando a ter essa visão, fico muito feliz quando vejo uma construção nova com acesso, todas deveriam ser assim.
JNT - O que você falaria para as pessoas que estão passando pela mesma situação?
Greyce - Para as pessoas que passam por uma situação igual a minha, diria a elas que não se tranquem em casa, porque a pessoa acaba se fechando naquele mundinho, com vergonha, e por isso acaba deixando de viver por falta de coragem de enfrentar as dificuldades. Eu aconselho que busquem por informações em centros de reabilitação, que existem ótimos no Brasil onde é tudo gratuito. E principalmente conhecer pessoas nas mesmas condições, trocar experiências, colocar a cara no mundo e não desistir nunca.
JNT – Há diferença entre uma cadeirante mulher e um cadeirante homem?
Greyce – Na minha opinião, cadeirante mulher é muito mais complicado por causa da vaidade. Mulher tem aquela coisa com roupa, cabelo, maquiagem. Imagina uma pessoa vaidosa dependendo de alguém até pra escovar seu cabelo. Pra mim isso foi o mais difícil no começo. Sofri muito.
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