Sex, 12 de Março de 2010 15:52
Tania Santor
“A sociedade é hipócrita ela jura certa amizade, mas delimita muito a oportunidade do deficiente.”
Na semana passada o JNT trouxe uma matéria sobre um caso de tetraplegia como o da novela da rede Globo, e que está bem próximo a nós.
A repercussão da matéria foi extraordinária e estão surgindo novos indicativos para outras reportagens.
Agora, por sugestão de leitores, o JNT foi conferir mais histórias de superação em nossa região, e novamente na cidade de Planalto.
Valderi Balz perdeu a visão com apenas quatro anos, pelo atrofiamento do nervo óptico. Hoje com 41 anos ele vive com a família e depois de muitas tentativas e estudo conseguiu passar em concurso público e conquistando o 1º lugar para a função de Auxiliar Administrativo, na prefeitura de Planalto. Há algum tempo Valderi tenta se incluir na sociedade, prestando vestibular, fazendo concursos e em busca de mais espaço e de uma vida normal perante a sociedade. Muito mais que dedicação, uma lição de vida, por mais que a sociedade tenha preconceitos, ainda existe espaço para as lutas por igualdade.
JNT- Como foi a perda da visão?
Valderi - Eu perdi a visão com 4 anos de idade, na verdade assim, eu tive dois períodos da minha história, na época eu morava no município de Santa Helena, a gente morava no interior da cidade, então até meus 21 anos eu tive mais contato com a família, com as pessoas mais próximas a família. Um envolvimento social grande eu tive a partir da minha mudança pra Planalto. Ai eu conheci a escola apesar de ter várias dificuldades na escola, mas eu devo à escola o fato de ter me ensinado a orientação e mobilidade que é andar na rua, porque existe uma técnica para um cego andar na rua, a escola me ensinou e eu devo isso a ela, eu acabei aprendendo e fui para a sociedade, e estamos lutando. No ano de 1992 eu entrei na em uma fábrica de móveis, onde eu trabalhei por 20 meses, apesar de ser um subemprego. Como experiência de vida foi muito boa eu gostei, foi um período bom da minha vida. Em 1993 eles fizeram um corte de pessoal daí eu sai, nunca me falaram diretamente, mas na época eu soube que havia muita gente assustando eles pelo fato de dar emprego a um deficiente, porque existem pessoas que não tem o que fazer e teriam assustado. Eu só peguei o meu último salário e sai em silêncio. Em 1994 eu comecei a entregar leite na cidade e durante 13 anos foi esta minha ocupação.
JNT- Como foi sua preparação para o concurso?
Valderi - Eu sempre estudei, concluí meu ensino médio em 1998, e mesmo depois de concluir meu ensino médio eu continuei estudando. Eu tenho contato com a fundação Dorina Nowill para cegos, de São Paulo eles me mandam livros mensalmente. Eu recebo a revista Veja falada então eu estou sempre lendo, pesquisando e procurei sempre me manter informado, e eu procuro pegar livros diversificados de todos os gêneros para poder aprender um pouco de tudo.
JNT - Qual foi a reação da sociedade perante o resultado?
Valderi - A sociedade é hipócrita, ela jura certa amizade, mas delimita muito a oportunidade do deficiente, então o deficiente que tenta lutar contra o limite, encontra uma lança no peito, a sociedade não aceita deficiente em uma inclusão total e eu sei. Assim, por exemplo, se eu começasse a trabalhar em muita coisa eu enfrentaria preconceito, mas só vai mudar se alguém tiver a coragem de enfrentar, mas em muita coisa eu me sinto discriminado, você sente que quando tenta uma aproximação maior de alguém, você tem a discriminação. Faz 20 anos que eu estou inserido na sociedade, toda vez que eu tentei me aproximar de uma mulher, ela fugiu como o diabo foge da cruz. Parece que nós cegos temos que ser um robô que é programado, temos que ir trabalhando na sociedade como se nós não precisássemos de afeto de carinho, como se nós não precisamos das coisas que qualquer ser humano necessita, as pessoas parece que não admitem que o ser humano cego é um ser humano como qualquer outro.
JNT - Como foi a realização da prova?
Valderi - A gente tem enfrentado algumas batalhas aqui nos últimos anos, eu sempre me senti prejudicado no Enem. Assim que você ia fazer a prova e você percebia que não eram pessoas preparadas para realizar a prova contigo que acabavam fazendo a prova, e eu sempre me senti prejudicado, já fiz vários Enem tentando entrar na faculdade, mas não consegui bons resultados em nenhum.
Então nesse concurso eu constatei que foi uma pessoa da própria empresa que me auxiliou, uma pessoa preparada, que soube fazer a leitura adequada das questões, a gente percebeu que houve um planejamento, e é o que aconteceu. Eu me senti valorizado e dessa vez a coisa andou, obtendo assim o resultado. Por outro lado, eu até comentei quando cheguei em casa, eu senti a matemática eu tinha achado fácil, português achei que não foi difícil e conhecimento geral e área especifica eu não tinha me preparado muito, mas daí foi para as respostas e graças a Deus, Jesus me ajudou também e eu consegui passar em 1º lugar para auxiliar administrativo.
JNT - Você pretende assumir o cargo?
Valderi - Agora nós estamos esperando o prefeito chamar, ai nós temos que conversar, eu só falo assim que hoje eu sou um aposentado, mas isso não me faz bem, eu sempre costumo dizer porque na verdade eu como um aposentado não pertenço a classe nenhuma, sabe que aposentado é aquela geração que já contribuiu com a sociedade e possui uma certa idade e que agora na idade deles seria normal ser um aposentado, embora alguns aposentados não fazem parte da sociedade eles estão inseridos em uma classe, agora eu sendo um aposentado não tendo a idade deles, eu não estou inserido naquele grupo. Hoje eu faço parte da Renovação Carismática da Igreja, mas na sociedade não me sinto inserido em nenhum grupo. Então a primeira vantagem de se assumir um trabalho é que eu já pertenço a uma classe, acho que isso já seria uma grande vantagem, e por outro lado eu acho que eu tenho condições de contribuir com a sociedade realizando meu trabalho e se me aposentar um dia, vai ser depois de prestar um serviço à comunidade fazendo jus a uma aposentadoria, e acho assim também em termos ocupacionais. Embora eu saiba que o trabalho me amarraria por alguns anos, mas tudo bem, todas as coisas da vida tem seu lado positivo e negativo, mas mesmo assim como cidadão como pessoa eu acho que seria muito mais vantajoso assumir do que não assumir, claro que pelo modelo de aposentadoria que eu tenho eu teria que abrir mão.
JNT - Você se considera um vencedor?
Valderi - Economicamente sim, como cidadão conseguindo algumas vitórias, trabalhar de verdade, dar aminha contribuição para a sociedade ser inserido em uma classe, ai sim vou me sentir um vitorioso. Eu costumo dizer que as pessoas devem conhecer a Bíblia, conhecer o que Jesus fazia pelos deficientes, para poder tornar a sociedade mais receptiva com as nossas diferenças.
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