Nas garras do ciúme
Retire a primeira pedra quem nunca se sentiu enciumado, ainda que tenha mantido o fato em segredo. Sutil ou avassalador, esse é um dos sentimentos mais contundentes do ser humano. Talvez por isso seja fonte de inspiração para escritores e compositores.
O ciúme está no centro do inferno emocional de Bentinho, personagem esculpido por Machado de Assis no romance Dom Casmurro que passa os dias dominado por incertezas e fantasias sobre a possível traição da idolatrada Capitu. Em Otelo, de William Shakespeare, ele é o “monstro de olhos verdes” que leva ao assassinato de Desdêmona. Na música, também não faltam exemplos. “O ciúme foi cantado por Orlando Silva, Roberto Carlos e Caetano Veloso, entre tantos outros”, lembra Luiz Tatit, compositor e professor da Universidade de São Paulo (USP). E, claro, não há novela que não leve um toque dessa pimenta nas relações. Na vida real, o ciúme é um dos temas que aparecem com frequência nas conversas com amigos, nas sessões de terapia. É compreensível. Afinal, no dia-a-dia é difícil ignorá-lo. “É natural sentir ciúme. É como sentir dor ou fome”, diz o especialista Ailton Amélio da Silva, da USP. Também é verdade que, no Carnaval, o monstro ataca com volúpia. Em sã consciência, nessa época de barriguinhas lindas à mostra, quem deixaria o parceiro passar o feriado sozinho? No entanto, para desespero dos mais preocupados, além do Carnaval e das situações comuns que podem ser estopins de uma crise, como uma simples ida a um restaurante, surgem outras capazes de despertar o monstro. As imensas possibilidades de contato com outras pessoas abertas pelas relações virtuais estão entre elas. Não é exagero dizer que as novas ferramentas de comunicação da internet estão para o ciúme como a gasolina está para apagar incêndio. O Orkut, por exemplo, é uma janela para o mundo que permite fazer contatos ou reencontrar antigos amores. Mas, para quem tem tendência ao ciúme, é mais uma trincheira de briga. Em geral, por causa de recados deixados nas páginas de visita. O correio eletrônico é outro cenário que atrai desconfiados decididos a escarafunchar as mensagens eletrônicas atrás de pistas de traição. O sentimento também se infiltra nas baladas. Por trás do clima aparentemente descomprometido das festas, estão jovens que muitas vezes não se dão o direito de admitir o desconforto quando o parceiro acha nova companhia. O que a moçada tenta fazer é administrar a situação. Na verdade, na geração adepta do ficar (trocar carícias sem compromisso), o ciúme perdeu espaço. “O ficar transformou a relação com o ciúme, que se mantém mais escondido”, avalia o psicólogo Ailton. Essas novas conformações associadas ao ciúme instigam os especialistas a aprofundar o conhecimento sobre esse sentimento. Sua gênese, pelo menos, já é conhecida. Para o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, autor do livro Ciúme – o medo da perda, a crença de que ele é inseparável do amor, por exemplo, remonta à origem do termo. “O amor é acompanhado de outro sentimento, que é o de cuidado, de zelo para com a pessoa amada. O ciúme é uma distorção deste zelo. A palavra vem do latim zelumem e do grego zelus. Esta confusão de significados leva muita gente, principalmente os latinos, a cultivar esse sentimento como prova de amor”, analisa. Na verdade, o ciúme não tem nada a ver com o bem-estar alheio. “Ele é a expressão do medo da perda ou da exclusividade sobre o outro”, diz a psicóloga Noely Moraes, da PUC/SP. Mesmo assim, é instintivo. “Ele é o grande responsável pela escolha da monogamia em boa parte das sociedades”, explica o psicólogo carioca Jorge Nogueira, criador do portal www.ciumeonline.com.br. Também não falta quem enxergue um lado positivo nesse sentimento. “Algumas pessoas reagem a ele com a vontade de ficar mais atraentes”, garante a psicóloga Ana Maria Rossi, de Porto Alegre. E há quem o provoque deliberadamente. No entanto, isso é um perigo. “É uma neurose complementar: alguns casais brigam para depois fazer as pazes. O problema é precisar de doses cada vez maiores para dar o mesmo efeito, como um vício”, alerta a sexóloga Márcia Bittar, de São Paulo. Excetuando-se esses casos mais raros, os especialistas vêem o ciúme como um sinal de desconforto que, se for eventual e passageiro, não preocupa. Mas o conceito se modifica à medida que a frequência e a intensidade aumentam. “Ele é tolerável até certo nível, mas fica doentio quando passa a ser o centro da relação”, diz a psicóloga Noely. Pior ainda quando surge constantemente envolto em fantasias. “O ciúme delirante é muito maléfico”, atesta Nogueira. De fato, o ciúme que incomoda precisa da atenção de especialistas (faça teste para saber seu grau de ciúme à pág. 53). Infelizmente, ainda não se inventou uma pílula para controlar mais essa angústia, mas a ajuda de psicólogos e psiquiatras tem sido providencial. Em geral, a saída indicada por eles é a terapia. Um dos pontos centrais do tratamento é cuidar da auto-estima do ciumento, quase sempre abalada. Esse, aliás, é um dos aspectos mais valorizados nas sessões do grupo de auto-ajuda Mulheres que Amam Demais Anônimas. Em sessões semanais, elas compartilham suas experiências. Rosângela (nome fictício) encontrou no grupo o alento de que precisava. Antes, tentou suicídio três vezes, sempre por ciúme. “Agora estou em recuperação”, diz. Comportamentos como o de Rosângela exigem ainda mais cuidados. “Há casos em que o ciúme é a ponta aparente da depressão. Nessas circunstâncias, o tratamento pode associar terapia e antidepressivos”, explica o psiquiatra Giancarlo Spizirri, de São Paulo. Às vezes, também é preciso proteger o parceiro, que pode se tornar vítima de graves agressões físicas. De qualquer forma, procurar ajuda, seja nos sites especializados da internet, seja no grupo de auto-ajuda ou no terapeuta, é o primeiro passo para uma vida mais feliz, a dois ou sozinho.
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