O "copiar colar" social

Sem dúvida, nosso cérebro é profissional em armazenar atos rotineiros. Em síntese, toda nova experiência cerebral acarreta a produção de uma proteína de memória; assim que é solicitado tal ato, a máquina cerebral é ativada e, em um piscar de olhos, estamos o realizando; mesmo que nos pareça involuntário. 

Repetimos tanto que perdemos a noção da complexidade de algumas tarefas; é claro que o funcionamento não é tão simples, bem pelo contrário, o ramo da ciência encarregado dos estudos neurológicos é um dos mais extensos e detalhistas. Mas, deixando para lá esse “papo de cabeça”, estava pensando cá para mim: Quantos movimentos complexos realizo no cotidiano? Pode parecer estranho, porém, alguém de vós já pensou na cadeia de movimentos que é necessária para efetuarmos um... Deixe-me pensar... Ctrl+C - Ctrl+V? Sim, aquele mesmo da “Internétia”! O local em que essa pergunta veio-me ao córtex cerebral era, um tanto quanto, desfavorável... 

Quinta-feira, 9h e tantas da manhã, aula de Ética médica e Bioética. Foi lá que o professor Henrique anunciou seu primeiro trabalho da seguinte forma: “Entreguem o trabalho no tal dia, ao cunho, nada de impresso! Para evitar aqueles “copi cola”. Inclusive, que genial, não?” Minha reação deve ter sido semelhante à de vocês: Genial? “O que um simples atalho tem de tão genial?”. Não foi fácil responder tal questionamento para mim mesmo. Um ato tão involuntário como esse, pode mesmo conter tanta complexidade? Pensemos. O Ctrl+C + Ctrl+V, carrega a genialidade de quem o programou. O homem tenta, e como, facilitar, acelerar e otimizar seu tempo. Essa ferramenta tornou viável o armazenamento de vários códigos escritos em um cachê especial de memória da máquina, possibilitando sua transferência de um domínio para o outro. Todo um conhecimento armazenado em tal lugar pode ser seu em apenas dois cliques do seu mouse, caso você ache pressionar tantas teclas ao mesmo tempo uma árdua missão. Sem ter de digitar páginas e páginas! É só selecionar o que lhe for querido e pronto! Copi e Cola!
Talvez, depois do domínio do fogo, essa tenha sido uma das maiores conquistas da humanidade: Dominar o fluxo de conteúdo da nuvem digital. O tempo passou. Após vários copi colas, fomos adquirindo certa experiência nesse ato. Surgiram cursos especializados em aprimorar ao máximo a técnica, pessoas começaram a disputar campeonatos de copi cola e eis que levamos esses valores fúteis do “pego daqui, passa pra lá” para o convívio social. Ao menos, é a forma que encontrei para explicar a disseminação desta praga. “Mas você não havia dito que se tratava de uma importante conquista hominídea?” Sem dúvida. Porém, como tantas outras, o homem conseguiu torná-la medíocre.

As nossas crianças veem o menininho bater no colega: Copi cola. Chegam em casa e veem o pai discutindo com a mãe: Copi cola. Jovens veem outros jovens usando drogas: Copi cola. Jovens veem outros jovens ofendendo moradores de rua: Copi cola. Universitários veem artigos na internet disponíveis e prontos: Copi cola.

A sociedade está encaminhando-se para o fim da interpretação, da análise, da ética. Acostumamo-nos tão bem a fazer cópias perfeitas de tudo o que observamos ou nos é palpável que, em pouco tempo, seremos meras réplicas. Pensar diferente, agir de maneira diferente, é ser chato, excluído.  “Ah, mas, caso o Ctrl C + Ctrl V não funcionar, exclua e selecione o que é de seu interesse novamente.”. A sociedade e sua seleção natural não permitem e não aceitam indivíduos iguais, elas trabalham com singularidades adaptativas. Não subestime as leis da terra, não caia nessa história de copiar e colar. Seu cérebro é capaz de realizar atos muito mais interessantes que um “Seleciona aqui. Isso,agora copia e cola.”

 

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