A arte de perder

 A arte de perder não é nenhum mistério; 
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. 
Aceite, austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente. 
A arte de perder não é nenhum mistério. 
Depois perca mais rápido, com mais critério: 
Lugares, nomes, a escala subsequente da viagem não feita. 
Nada disso é sério. 
Perdi o relógio de mamãe. 
Ah! E nem quero Lembrar a perda de três casas excelentes. 
A arte de perder não é nenhum mistério. 
Perdi duas cidades lindas. 
E um império que era meu, dois rios, e mais um continente. 
Tenho saudade deles. 
Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. 
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

                                                                                                                     (Elisabeth Bishop)

Fala-se tanto em aprender perder, mas, não conheço quem saiba notoriamente aplicar tanta teoria. Não se pode ir perdendo alguém “um pouquinho a cada dia”. 

Aqui de Tubarão, entre uma anatomia e outra, soube da perca terrena. Professor Chicão era amigo, companheiro, colega de tragos, frangos e fritas. Pessoa única em ambiente que fosse. Fosse na rua, fosse no banco, “fosse onde fosse”. Era só gritar: “Ô professor Chicão!” E lá vinha Chicão com sua mão grande lhe dar um boa tarde, dia, noite. Tivesse sol ou não, Lá estava Chicão. Chicão sempre alegre... Lembro-me de sua cara raivosa apenas em uma ocasião: Sexta série, aula de inglês, alunos conversando, chega Chicão: “O que tá acontecendo povão?”

Estava nos dias para mudar-me para cá quando o vi pela última vez. Com o riso de sempre veio Chicão e disse alegremente: Conseguiu rapaz? Parabéns! Dei-lhe um aperto de mão daqueles que balançam, e agradeci a tudo que ele me ensinou. É triste. Chicão da piada, Chicão cantador. Era comemoração de alguma vitória, na casa da professora Nair e do Seu Teixeira, quando ele gritou: “Agora entra no ritmo certo dessa música que eu vou te mostrar quem é o trovador.”

Perder um professor não é algo que já me havia acontecido. Pra onde será que vai todo o teu conhecimento Chicão? Será que volta pra terra e faz um novo Homão? Do tipo grande, de voz rouca estridente e uma baita palma da mão?

Não sei de nada mais memorável a fazer em sua homenagem professor; não que eu possa fazer agora, e daqui. Onde tiver, cuida da tua gente, Chicão. Numa dessas, nos encontramos mais pra frente.

                                                                  A família, força e fé.

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