A falta de acabativa

Interessante pensar no quanto nós, brasileiros, fazemos e pensamos as coisas sem estratégia para começo, meio e fim.


Basta, simplesmente, observar pequenas situações do cotidiano. Outro dia, fui ao consulado dos EUA tirar o visto para uma viagem educacional e observei, naquela imensa fila à espera de atendimento, que cada pessoa tinha em mãos três maços de papel, separados por três clips, aguardando as ordens dos funcionários responsáveis por organizar as filas.

Na primeira vistoria dos documentos, a ordem era revisar o material e retirar os clips para o uso do grampeador, tudo feito por um profissional do Consulado. E, para minha surpresa, os clips foram jogados no chão, ignorando todos os ensinamentos que aprendemos em casa e na escola: é preciso guardar para reutilizar.

Comecei a prestar mais atenção naquela situação e, indignada, notei que o pátio interno do Consulado estava repleto de clips pelo chão, inúmeros, centenas deles. Automaticamente, comecei a juntar e conclui: é impressionante como não temos a acabativa. O correto seria este ser humano/trabalhador do local pegar os clips e encaminhar, quem sabe, a uma entidade ou algum hospital que utiliza.

Andando por Curitiba, podemos ainda hoje, começo de junho, encontrar placas e faixas da Prefeitura Municipal alertando para o início do ano letivo, sendo que as aulas começaram no início de fevereiro.

Tudo isso representa uma falta de acabativa inexplicável. E é uma pena que, ao pensarmos nas famílias, a mesma situação acontece na educação dos filhos, que são mimados, cuidados e olhados até os 11, 12 anos. Depois desta idade, nossa acabativa é desastrosa, pois os pais acreditam que já cresceram, que não precisam mais de monitoramento e que estão aptos a passear sozinhos por shoppings e parques, onde têm acesso a uma gama de situações, positivas e negativas.

A falta de acabativa, acoplada ao desesperado sentimento de liberdade, faz com que nossos adolescentes procurem fora de casa o diálogo, a compreensão, a vivência e a afetividade. Neste processo, vemos, hoje, uma sociedade com problemas em seus princípios básicos de formação humana. A acabativa precisa ser resgatada e repensada, pois uma iniciativa sem a acabativa deixa suas características positivas se perderem no tempo.

*Esther Cristina Pereira – diretora da Escola Atuação, de Curitiba (PR)

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