Veterano, mas renovado, Mille encara Ka
Fiat mudou para ficar mais econômico; Ford ainda traz ar de novidade
O Fiat Mille era o carro mais barato do Brasil até pouco tempo – abril deste ano, mais precisamente. De lá para cá, viu uma revolução em sua vida. Perdeu o posto para o Effa M100, chinês que chegou ao país para ser o automóvel mais em conta do mercado, e viu o crescimento de vendas do novo Ford Ka, lançado no finalzinho de 2007/começo de 2008.
Sem sentir muito o golpe, o compacto da Fiat continuou vendendo bem, mas decidiu revidar em agosto. Sim, o veterano hatch, lançado no Brasil em 1984 (o Mille, com motor 1.0 l, chegou em 1990), ainda tinha fôlego para mais: ganhou o sobrenome Economy, passou por uma leve redução de preço e estreou mudanças para ser imbatível em termos de custo/benefício. Resultado: tornou-se o 2º modelo mais vendido do país, atrás apenas do VW Gol.
Mas fica a pergunta: o Mille vende bem apenas porque é o mais barato – o encarecimento do Effa 2009, que custa agora R$ 25 980, devolveu o título de mais em conta do Brasil ao Fiat – ou tem armas para lutar de igual para igual com projetos mais novos?
Para responder a essa pergunta, convocamos o Ford Ka, outro que viu suas vendas aumentarem vertiginosamente desde que foi renovado, para medir forças com o Mille. Enquanto o Fiat aposta no espaço interno e no custo/benefício acima de tudo para conquistar solteiros e famílias, o rival tem na dirigibilidade e no ar de novidade seus principais atrativos.
 Acompanhe ponto a ponto o duelo entre Fiat Mille Fire Economy 1.0 Flex 4 portas (R$ 25 210) e Ford Ka 1.0 Flex (R$ 26 190).
 Mecânica/desempenho/consumo
 Antes de falar do desempenho dos nossos protagonistas, uma palavra de apoio: não desanime, pois seus antepassados já sofreram mais com carros 1.0 l na época em que eles tinham 50 cv de potência. E também não se deixe levar apenas pelos números. O Ka é mais potente e forte, mas anda menos que o Mille: enquanto o Ford desenvolve 73 cv de potência a 6 000 rpm e 9,4 kgfm de torque a 3 750 rpm, o Fiat chega a 66 cv a 6 000 rpm e a 9,2 kgfm a 2 500 rpm – ambos com álcool.
 Mas, na hora de acelerar na pista de testes, deu Mille: 0 a 100 km/h em excelentes 14s8 contra 16s6 do Ka. Até 120 km/h, a diferença é ainda maior: 22s8 vs. 26s1. A retomada seguiu a tendência: para ir de 60 km/h a 120 km/h em 4ª marcha, o Fiat levou 18s1, enquanto seu rival precisou de 24s9.       
 Pode parecer estranho um carro mais potente andar menos, mas isso se deve basicamente a dois fatores: peso inferior do Mille, que tem 840 kg contra 943 kg do Ka – na relação peso/potência, portanto, 12,72 kg/cv contra 12,91 kg/cv – e calibração pouco eficiente do propulsor da Ford, que visa mais economia que desempenho.
 Mesmo assim, o Fiat também vence na hora de parar na bomba de combustível. De acordo com nossas medições, ele pode rodar 10,2 km/l com 100% de álcool no tanque dentro da cidade. Na estrada, são 12,3 km/l. O Ka faz 8,8 km/l e 11,6 km/l. Neste item, vitória com folga do Mille, que anda mais e gasta menos.
 Dirigibilidade/visibilidade
 O Mille deu azar. Pegou pela frente o compacto que é referência na categoria em termos de prazer ao dirigir – sim, o Ka prova que pode ser bem interessante “pilotar” um 1.0 l. A começar pela posição de dirigir mais baixa, o Ford já mostra que é mais ousado que o Fiat.
 É ágil nas mudanças de direção, tem suspensão bem acertada e faz muita curva – sem balançar demais, coisa que acontece com freqüência no Mille. Uma freada mais forte também denuncia a carga de amortecedores e molas mais rígida no Ka, que não “mergulha” como o concorrente.
 Mas é na hora de falar em visibilidade que as polêmicas aumentam. Embora todos que dirigiram os dois modelos na redação tenham considerado o Mille melhor, a impressão é contrariada pelo Ranking de Visibilidade do Cesvi Brasil (Centro de Experimentação e Segurança Viária), que coloca o Ka à frente (liderando a lista de hatches compactos, aliás) com quatro estrelas. Em 2º lugar está o Mille, com três estrelas “e meia”, ou seja, você estará bem servido no quesito independentemente da escolha. No conjunto da obra, ponto para o Ka.
 Design/atualidade
 Por mais que um fã de Mille tenha boa vontade, é impossível defendê-lo diante do Ka. O Fiat traz apenas pequenas alterações no desenho inicial, que tem 24 anos, e ainda desfila as linhas quadradas típicas dos compactos dos anos 80.
 O Ford, por sua vez, tem no visual um dos grandes argumentos de venda. As linhas ousadas da geração anterior foram deixadas de lado e no modelo 2009 imperou um projeto mais conservador, mas nem por isso menos interessante, o que lhe dá grande vantagem aqui.
 Acabamento/espaço/ergonomia
 Se o Ka vinha levando tudo, o Mille revida neste item, apesar de algumas deficiências gritantes de sua ergonomia, como o rádio posicionado quase no chão, o que tira a atenção do motorista mesmo para aumentar o volume, e a alavanca do câmbio muito baixa.
Muito mais espaçoso, ele também traz o fortíssimo trunfo das 4 portas. Aqui vale uma explicação: apesar de ter uma versão 2 portas, escolhemos essa opção do Fiat porque é a que mais se aproxima em preço do Ka mais barato, ou seja, quem opta pelo Uno tem um carro mais antigo, mas com mais espaço e 4 portas.
 O acabamento não é um exemplo em nenhum dos modelos, mas o Ford decepciona mais por ter piorado em relação à geração anterior. Vitória do Mille, apoiado no maior espaço e nas 4 portas.
 Mercado/preço/equipamentos
 Falar dos equipamentos de série de Mille e Ka é como falar em desempenho: já bate aquele desânimo. O Fiat traz apenas os itens básicos para “sobrevivência” e o alardeado econômetro, um ponteiro que fica no centro do painel e ajuda a economizar combustível, indicando os momentos de maior gasto e auxiliando o motorista a dirigir de forma a poupar o máximo de litros possível.
 O ar-condicionado do carro mais barato do Brasil não sai tão em conta assim: R$ 3 337, elevando o preço de R$ 25 210 para R$ 28 547. Quem quer apenas a direção hidráulica terá de levar o Kit Celebration 2, que ainda traz travas e vidros elétricos dianteiros, preparação para som e kit visibilidade (limpador, lavador e desembaçador do vidro traseiro), entre outros, por R$ 2 651, deixando o valor do Mille em R$ 27 861. Para ter tudo isso, a Fiat cobra R$ 5 539 no Kit Celebration. Com ele, o compacto pula para R$ 30 749.
O Ka vem mais completo. Não conta com econômetro, mas tem travas elétricas, alarme com acionamento na chave e botão para abertura do porta-malas no painel, um luxo e tanto para modelos de entrada. Para levar a direção hidráulica, paga-se R$ 2 800 em um pacote que traz kit visibilidade, aquecedor – ausente no Mille – e preparação para som, mas não conta com vidros elétricos – presentes no pacote similar do Fiat, R$ 149 mais barato. Dessa forma, o Ka custa R$ 28 990.
 O ar-condicionado está disponível por R$ 3 100 e ainda traz aplique preto nas colunas das portas e controle interno do retrovisor do motorista. Tudo por R$ 29 290. Com ar, direção, vidros e travas, o cheque fica em R$ 31 490.
Em termos de desvalorização, o Ka é melhor: de acordo com a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), ele perde R$ 2 162 no primeiro ano de uso, uma depreciação de 8,25%. O Mille vale R$ 2 610 a menos, 10,35% de seu total.
 No fim das contas, o bom senso nos leva a um empate, já que o Mille é mais barato, mas menos equipado, ambos desvalorizam muito pouco e são bem aceitos no mercado de usados. 
Manutenção/seguro/garantia
 Chegamos a um ponto importante – talvez o mais relevante deles – para quem está comprando um carro de entrada: a hora de colocar a mão no bolso.
 Vamos começar pelo valor do seguro, decisivo em muitas compras: as apólices cotadas na Tókio Marine para um homem de 40 anos casado ficaram em R$ 1 640,50 para o Ka e R$ 1 943,05 para o Mille.
 A vantagem do Ford também se repetiu na hora da manutenção. O pacote de peças composto por kit de embreagem (platô, disco e rolamento), pastilhas de freio, par de amortecedores dianteiros, pára-lama e retrovisor saiu por R$ 862 para o Ka e R$ 989 para o Mille. Somadas as diferenças, são R$ 430,95 a mais para quem opta pelo Fiat.
 Conclusão
 O Mille lutou até o último quesito, mas não resistiu à modernidade do Ka. É bem verdade que o modelo da Ford mantém a base do carro lançado no Brasil em 1997, mas, mesmo assim, ainda é bem mais atual que o Fiat.
 Superior em Dirigibilidade/visibilidade e Design/Atualidade, ele também surpreendeu ao apresentar custos de manutenção e seguro inferiores aos do concorrente. O Mille, por sua vez, continua um ótimo modelo quando os assuntos são Mecânica/desempenho/consumo e Acabamento/espaço/ergonomia, mas dá sinais da idade.
Em 2010/2011, estréia seu substituto, fruto do projeto 326/327 da Fiat. Mas essa é outra história, que terá de aguardar alguns anos para ter seus detalhes revelados. Por enquanto, a verdade é que o Mille ainda é um carro honesto e vende bem, mas atrasado para brigar com o Ka.
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