Uma década chamada anos 80

Por Vilmar Bitencourt

Tudo o que a gente viveu parece mais atraente do que possa realmente ter sido para quem não viveu. O passado sempre parece ser melhor que o presente, porque o pintamos da cor que nós queremos. A frase não é minha, não sei de quem é, mas nunca esqueci. E tentar viver o passado ou pelo menos imaginar o que era é uma das minhas manias mais chatas. Tive uma imensa felicidade de ter vivido a década de 80. Vivi completamente, pois nasci em 58 e estava com 22 anos de idade. A década de 80 me fascinou realmente. Não faço idéia do por que. A música, o modo de vida, os filmes, os desenhos, os esportes, os acontecimentos históricos, tudo parecia melhor. Mais simples. Hoje, se estivéssemos nos anos 80 eu não estaria sentado à frente de um computador escrevendo e lendo opiniões alheias no Twitter, Facebook, Orkut e outros mais. Nem ao menos poderia publicar esse texto pra alguém ler, pois não existia blog. Eu estaria escrevendo numa máquina de escrever, fazendo um barulho infernal, assistindo TV Pirata. E o texto, ficaria guardado em alguma gaveta, sem que ao menos alguém pudesse ler. Mas a década de 80 contém uma seleção de coisas que eu gostei de ter visto, sentido, participado, ouvido. Gostei de ter visto o surgimento da Legião Urbana, do rock brasileiro com toda a sua força. Fui a um show do RPM, da Blitz e do Inimigos do Rei e fiquei cantando “vem Kafka comigo...” o dia todo. Gostei de ter gravado em fita k7 e entregado a alguém. Esperava um tempão pra comprar um LP de algum artista. O A-Ha, o Smith, até o The Cure. Ficava esperando tocar The Housemartins cantando “Pa pa pa papeeel” em alguma rádio pra poder gravar. Ouvi muito o Guns N’ Roses em seu surgimento e ali cultivei esperanças de ver uma das maiores bandas de rock da história.

Gostei de ter ido ao primeiro Rock in Rio. Não pela questão musical em si, mas por ter sido um marco, um festival inédito de tudo o que se tinha notícia por aqui. Vi o primeiro desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro na Marquês de Sapucaí. Cantei Bumbum Paticumbum Prugurundum e É Hoje o Dia, da Alegria.. Assisti “Os Trapalhões” em sua formação completa. Esperava toda semana pra ver TV Pirata. Chacrinha, Bolinha e Viva a Noite. E as Diretas Já? E ter tido esperança na mudança do país? Aliás, quanta decepção devem estar tendo aqueles jovens que foram as ruas, com o país hoje hein? Eu participei da decepção de ter visto um presidente eleito pelo povo, após tanto tempo, ir embora antes de assumir o posto. Gostei de ter visto a Argentina campeã de 1986, com Diego Maradona a frente daquela fantástica seleção. Vi a Seleção Brasileira, sim, eu vi a Seleção de 82 jogar. Gostei de ter visto um desfile de craques no Campeonato Brasileiro. Reinaldo, Éder, Luisinho pelo Atlético. Zico, Sócrates, Falcão, Junior, Renato Gaúcho, no auge da carreira e até Serginho Chulapa marcando o gol do título do Santos em 84. Eu vi a Fórmula 1 mostrar ao mundo um tal de Ayrton Senna. O Brasil parava toda manhã de domingo pra ver aquele ídolo.

Mesmo não sendo criança eu passei muitas manhãs assistindo He-Man, Duck Tales, Muppet Babies, Os Herculóides, Manda Chuva, Nossa Turma, Pequeno Príncipe, Punky. Tive um Walkman, um toca-fitas. E logicamente também joguei Atari. Gostei de ter visto Indiana Jones e Rocky IV no cinema. Aplaudi a cena do ET voando na garupa da bicicleta passando em frente à lua. Assisti Top Gun e sonhado, na ingenuidade, em me tornar um piloto. Me acabei de tanto rir com o filme Corra que a Polícia Vem Aí. Sonhei em ser um lutador com o filme Karate Kid. Sonhei com um futuro esquisito, com Blade Runner e De Volta Para o Futuro. Vibrei com Rambo e os filmes de luta de Van Damme, Schwarzenegger e Stallone. Além de Bruce Lee. E o que dizer de Scarface? Me inspirei em Ferris Bueller (Curtindo a vida adoidado) e ainda ter vibrado em Os Goonies e os Gremlins. Podia ser possível voltar ao passado. Não como atuante, pois como sabemos uma alteração no passado, muda todo nosso presente e futuro, mas uma forma de simplesmente assistirmos, pararmos em frente a um aparelho e assistir, como se assiste a uma TV. E mais, poder sentir a mesma sensação de quando estivemos ali...

 

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