O “big brother” da boléia
Imagine a seguinte situação: um motorista de caminhão atravessa a madrugada no volante para compensar o atraso ocasionado por uma barreira. A certa altura, já dominado pelo cansaço, o condutor “deixa” o veículo cruzar a faixa que divide os dois sentidos. Um alarme soa no interior da cabine, o volante vibra e automaticamente o caminhão é reconduzido para a sua pista. Um pouco mais à frente, o alarme volta a disparar e um aviso de “parada” surge no painel. Desta vez, uma câmera, posicionada diante do motorista, acabara de detectar que o piscar dos olhos do condutor estava muito lento, indicando sonolência. Percebendo que a condução havia se tornado potencialmente perigosa, o caminhoneiro decide parar num posto de combustível para descansar. Retoma a viagem logo ao amanhecer.
Graças à tecnologia disponível no caminhão, o personagem descrito acima deixaria de engrossar a estatística do Ministério da Saúde, que aponta para 350 mil/ano o número de vítimas em acidentes de trânsito no Brasil, se o fato narrado não fosse apenas uma ficção. No entanto, engenheiros e cientistas da Volvo Trucks Corporation (VTC), uma das maiores fabricantes do mundo de semipesados e pesados, buscam transformar este cenário em realidade. Os modernos acessórios de segurança observados no hipotético caminhão fazem parte de um pacote de tecnologias que está sendo desenvolvido pela empresa sueca e que visa auxiliar o motorista não só na condução do veículo como também agir para evitar possíveis acidentes. É o caso do Cruise Control Adaptável (ACC), um piloto automático utilizado nos modelos Volvo desde 2003 que ajuda o condutor a manter uma distância constante entre o seu veículo e o da frente. O sistema, que economiza combustível e as lonas do freio, está sendo aperfeiçoado de modo a permitir um controle ainda mais eficaz da velocidade. “Numa emergência, se o carro da frente parar repentinamente, o sistema irá acionar os freios, reduzindo o tempo total de frenagem em um segundo, sem que o motorista precise primeiro observar a situação para depois reagir. Isso pode significar a diferença entre uma colisão e evitar o acidente”, explica Zeljko Jeftic, especialista em segurança ativa da VTC e que no início do mês participou do Seminário de Segurança Volvo, na sede da fábrica no Brasil, em Curitiba. A tecnologia está prevista para ser implantada na Europa até o fim de 2006. As demais inovações, como as citadas na abertura da matéria, ainda vão demorar um pouco mais para chegar ao mercado. “O prazo é de cinco anos na Europa e até dez anos no caso do Brasil”, salienta Lars-Göran Löwennadler, diretor de Produtos e Segurança da VTC. Segundo ele, vários testes de campo estão sendo realizados e é preciso antes observar como o mercado irá reagir para então lançar o produto. “Temos que avaliar, por exemplo, numa situação de frotista, como se sente um condutor ao ser monitorado 100% por uma câmera, com as informações sendo repassadas ao dono do caminhão”, ressalta Löwennadler, referindo-se ao fato de o equipamento vir a revelar um condutor desatento e imprudente. “No futuro poderemos até detectar motoristas alcoolizados ou drogados”, acredita. Um outro sistema está sendo projetado para acabar com os chamados “pontos cegos”, locais em volta do caminhão que fogem do campo de visão do motorista. Um deles, localizado na lateral direita dianteira, é a causa de muitos acidentes. É quando o caminhoneiro muda de faixa sem se dar conta da presença de carros no trajeto que pretende seguir. Uma câmera estrategicamente posicionada capta a imagem do automóvel, que pode ser vista num monitor de LCD localizado na direção do espelho retrovisor externo. O mecanismo também emprega sensores de radar próximos aos degraus de acesso para registrar a presença de veículos em toda a lateral da carreta. O “ponto cego” situado na parte traseira do caminhão atualmente já é coberto por uma câmera de monitoramento de marcha-ré. Os acessórios de última geração não visam apenas a utilização em rodovias. Na cidade também é possível contar com o auxílio da tecnologia. Como no caso de uma parada no cruzamento. A visão imediatamente à frente do caminhão, a partir do assento do motorista, muitas vezes fica prejudicada, especialmente se a cabine for alta. Por isso, uma outra câmera, situada logo abaixo do pára-brisa, cobre esta área oculta, evitando assim o atropelamento de pedestres – o acessório é ativado automaticamente toda vez que veículo pára. Pesquisa O gerente de serviços da Volvo do Brasil, Guilherme Blaschke, lembra que os caminhões da marca são desenvolvidos em cima de pesquisas feitas nos locais de acidentes. “O levantamento de dados obtidos nestas ocorrências proporciona dados essenciais para a melhoria dos veículos e o desenvolvimento de novos produtos”, afirma. O objetivo, segundo ele, é criar sistemas que ajudam o motorista a tomar decisões rápidas para prevenir o acidente. “A intenção é adaptar o veículo para as limitações do homem, ajudá-lo a não cometer erros, afinal de contas a falha humana é responsável por 90% dos acidentes com caminhões.” Renyere Trovão
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