Tempos de Provação

Não há que usar meias palavras face os graves problemas de pedofilia por parte de membros do clero que nestes últimos tempos afloram à superfície da história e das manchetes.

São nódoas difíceis de remover. Causam vergonha, humilhação, tristeza, decepção, suscitam dúvidas, favorecem maledicências, multiplicam-se as suspeitas... E os bons padres (E quantos!!!) vêem-se, também eles, observados como potenciais autores de semelhantes perversões. Os casos são graves, alguns antigos, dramáticos, deploravelmente ofensivos, motivos de revolta e de lágrimas. A tristeza do Papa Bento XVI é imensa. Em Malta chegou a derramar lágrimas. E aqui no Brasil ninguém esquece os fatos horrendos de Arapiraca. Que valha o ordenamento jurídico civil para tais casos.

Agora, talvez passados os dias vulcânicos de amargas surpresas e profundas decepções, acerca dos quais as interpretações são instigadas por fortes sentimentos, quem sabe seja possível alguns princípios de reflexão. Em primeiro lugar há que começar de dentro de nossa Igreja. Que os erros havidos nos ensinem a não descurar problemática tão séria. São realidades traumatizantes. Por outro lado é preciso muita sabedoria para não se ensejarem difamações caluniosas. Parece que o tema se tornou moda, e com incrível facilidade e baixeza de discernimento elas, as difamações, se apresentam!!! Ademais, os preconceitos encontram agora terreno fértil. Um importante articulista de São Paulo, não católico, dias atrás escreveu que “o único preconceito considerado ‘científico’ nos jantares inteligentes é o preconceito contra a Igreja Católica” (Luiz Felipe Pondé, “Sade de Batina”, Folha de São Paulo, 26.04.2010, Caderno Folha Ilustrada).

É curioso quanto é grande a atenção e destaque às realidades trágicas e negativas. Por quais razões não se valoriza o bem realizado quase em silêncio por tantos, dentro e fora da Igreja? Isso se tornou até proverbial: “O bem que se faz é registrado na areia. Os erros são registrados no mármore”. E no caso dos abusos sexuais de crianças não se pense que este é um problema sério apenas entre alguns eclesiásticos. A maior parte deles se verifica no âmbito familiar entre parentes. Onde tudo isso começa? A causa de tudo isso circunscreve-se apenas à perversão malévola ou doentia de uns poucos? Em qualquer análise que se queira fazer, além da problemática individual, não seria também acertado incluir influxo de uma cultura de fragmentação ética e de permissividade? Não de hoje que muitos agentes da injustiça levantam sua voz para condenar os injustos.

Algo deveria ser retomado dentro e fora da Igreja. Refiro-me aos “mandamentos da lei de Deus”. A expressão pode suscitar risos. Mas as suas poucas palavras dos apenas Dez Mandamentos são enfáticas, profundas e simples quando se trata de castidade, de honestidade, de transparência, de fidelidade. Não é uma lei oriunda de debates filosóficos, ou de reflexões de especialistas. Ela está presente, ínsita no coração humano. Não há necessidade de muitas elaborações para saber o que é verdadeiro e certo e o que não o é. Mas a corrupção parece ter se tornado símbolo de esperteza. Para falar da verdade, nos nossos dias, basta “parecer veraz”. Lembro agora da frase de Dostoiewski: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. Quando Deus é ignorado, o homem é golpeado. Sempre.

Vez por outra surgem vozes indicando que os escândalos que nos envergonham enquanto Igreja seriam menos frequentes, e em grau menor, se não houvesse o dever do celibato aos padres. As estatísticas, porém, contestam. Não se trata de “déficit de intimidade”. Um dos mais famosos terapeutas do crime em escala mundial, Bill Marshall, parte do pressuposto de que um celibatário é capaz de suplantar a solidão desde que conserve uma íntima relação com Deus. Por outro lado, a simples atividade sexual, por si só, não garante nenhuma vitória sobre a solidão. É preciso, mais do que tudo, desenvolver e proteger a capacidade de “viver para os outros”. Em outras palavras, vencer o egoísmo.

Segundo especialistas, as grandes crises pessoais ligadas à castidade, matrimonial ou celibatária, são precedidas de crises no âmbito da espiritualidade. Se um padre descuida de sua oração e de sua amizade com Deus deixa de ser fecundo como sacerdote. Quando ocorre o contrário, felizmente muitos casos, as comunidades sentem que daquele homem de Deus realmente promana uma força que procede do Espírito de Deus. Mas vale o mesmo para todas as pessoas: quem estiver em paz com Ele, estará em paz com os outros, porque terá paz consigo mesmo.

* Dom José Antonio Peruzzo (Bispo da Diocese de Palmas-Francisco Beltrão)

 

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