Cronoterapia, o tempo na terapia

Mario Eugenio Saturno
A ciência tem desenvolvido uma grande variedade de remédios para tratar as mais diversas doenças. Obviamente, diversos fatores influem no desempenho de um tratamento. Uma nova linha de pesquisa, que considera o ciclo circadiano humano, de vigília e sono, pode revolucionar as terapias.
Os cientistas do "Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale" da França realizam uma pioneira pesquisa em quimioterapia considerando o horário da aplicação das drogas. Eles descobriram que as drogas foram mais eficazes à tarde, das 13 às 16h. A pesquisa envolveu diferentes drogas quimioterápicas, abrangendo 114 pacientes com câncer intestinal e 45 com câncer nos pulmões.
Os resultados foram surpreendentes, as drogas foram duas vezes mais efetivas na redução dos tumores no período vespertino e, ainda, o efeitos colaterais à saúde foram equivalentes a um quinto dos outros pacientes. Francis Lévi acredita que à tarde as células do corpo entram em um estado de repouso absorvendo menos as drogas, por isso o organismo sofre menos os efeitos negativos do tratamento. Isso se deve por conta do relógio que temos em nosso corpo e determina durante o dia diferentes níveis da temperatura, da secreção de hormônios, da atividade de enzimas dos rins, etc.
Para diminuir os efeitos colaterais das drogas quimioterápicas, a equipe da França e mais oito grupos europeus da Itália e Reino Unido uniram-se para criar o Projeto TEMPO ("Génomique temporelle pour l'individualisation de la chronothérapeutique") e desenvolver terapias baseadas no relógio humano. Nesse projeto, os cientistas já testaram a toxicidade de duas drogas, a irinotecana, usada no tratamento de câncer colo-retal, e a seliciclib, droga em desenvolvimento. A irinotecana provoca grave diarréia em 30% dos pacientes, declínio nas células brancas em quase metade dos pacientes e extremo cansaço. A Seliciclib causa grave fadiga e desordens metabólicas. Em experimentos com ratos, os medicamentos aplicados em diferentes horas do dia provocaram efeitos colaterais até três vezes piores. Para os pesquisadores, a irinotecana deveria ser administrada às 5h da e a Seliciclib às 2h. A toxicidade depende ainda do sexo e da herança genética.
Esse é um sucesso de um longo trabalho. O dr. Lévi iniciou suas pesquisas no inicio da década de 1990, quando resolveu experimentar a cronoterapia em pacientes com câncer nos intestinos bastante avançado. As drogas usadas são muito tóxicas, a 5-FU e um composto de platina. No grupo testado, a 5-FU foi administrada no meio da noite e a platina no meio do dia. Enquanto que nos pacientes que recebiam a droga por infusão continua por cinco dias, tratamento comum, tiveram uma redução do tumor em apenas 30% desses pacientes, nos pacientes que receberam as drogas em horários escolhidos, o sucesso chegou a 50% deles. Algo a ser considerado nos nossos hospitais.
* Mario Eugenio Saturno, de Bariloche - Argentina, é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), professor universitário e congregado mariano. (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.)
 

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