Uma fantástica fonte de vida
Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. . . Esse trecho da canção de Vinicius de Moraes serviria muito bem para descrever o útero materno. Enquanto o bebê cresce na tal casa sem teto nem parede, um tubo gelatinoso se encarrega de fornecer a ele o oxigênio e os nutrientes necessários ao seu crescimento, vindos da circulação materna, e leva embora o gás carbônico e as sobras do metabolismo. "Todas as funções vitais do feto são supridas através do cordão umbilical", informa a neonatologista Marisa Sassaki, chefe da Pediatria do Hospital São Camilo, em São Paulo.
O precioso tubo que conecta o bebê à placenta desenvolve-se junto com essa estrutura a partir da quarta semana de vida. Possui duas artérias e uma veia por meio das quais o feto recebe oxigênio e alimento. Dali, o sangue vai para o coração, um dos primeiros órgãos a entrar em atividade. Ele começa a bater antes de o pequeno completar 1 mês de vida intra-uterina e já está totalmente formado por volta da décima semana de gestação. Do coração, o sangue é distribuído para os tecidos. O pulmão não participa desse processo. Último órgão a amadurecer, só entra em cena depois do nascimento. "O feto vive através do cordão", completa a médica. O cordão umbilical atinge, em média, de 40 a 60 cm de comprimento. "O tamanho é imprevisível, independe de raça ou tendência familiar", esclarece Marisa. Cordão pequeno pode dificultar o parto normal: a mãe entra em trabalho de parto, tem contrações, mas a criança não "desce". Se for longo, aumenta o perigo de circulares de cordão: o tubo se enrola no corpo do bebê, o que pode trazer problemas na hora do nascimento. Se ficar em torno da cabeça, há risco de enforcamento e asfixia. Em outros locais, pode reduzir ou interromper o fluxo de sangue à criança. Exames de ultra-som às vezes mostram o cordão enrolado no feto. Mas convém lembrar que o resultado nem sempre é definitivo: o nenê vive imerso em água, nada e se mexe o tempo todo, enrola-se no cordão, vira e se desenrola. Nos meses finais, porém, o espaço fica mais reduzido e os movimentos do feto, limitados. Então, se a circular for vista no último ultra-som, por segurança o obstetra talvez recomende a cesárea. Manobras realizadas por médicos experientes durante o parto normal também contribuem para evitar complicações associadas às circulares de cordão. Hora de desligar Antes, o obstetra colocava em cima do corpo materno o bebê que acabava de nascer e aguardava o cordão parar de pulsar para fazer o corte. Hoje, a tendência é realizar logo o corte e entregar a criança rapidamente para o pediatra, que trata de garantir sua respiração, removendo das vias aéreas líquidos que podem dificultar a passagem do ar. É nessa hora que o pulmão do pequenino começa a funcionar. Os vasos sanguíneos ligados ao cordão umbilical deixam de ser utilizados e o sangue inaugura novo percurso no corpinho do nenê. "Esperar que os batimentos cardíacos diminuam para cortar o cordão não traz benefícios e pode retardar o atendimento", alerta a especialista. Para "desconectar" o bebê da mãe, o médico coloca uma pinça no cordão umbilical e outra a poucos centímetros de distância e faz o corte entre elas. As pinças impedem sangramentos de ambos os lados. O bebê não sangra pelo pedaço do cordão que continua ligado ao seu corpo nem a mãe perde sangue pela parte do tubo presa à placenta. O pediatra completa o serviço: põe um clipe (pregador) de material plástico, estéril, a 2 cm do abdômen do bebê e corta o restante do cordão. "Esse clipe não é colocado rente à pele porque dificultaria a limpeza do coto", explica Marisa Sassaki. O pedacinho de cordão que sobra tende a secar porque o sangue não passa mais por ali. Escurece e, um ou dois dias depois, adquire a aparência de ameixa seca, quando o clipe é retirado. Portanto, muitos nenês saem da maternidade sem ele. Quando demora mais para secar, o clipe é mantido e cai junto com o coto, de 7 a 15 dias após o nascimento. Cuidados em casa A higienização bemfeita acelera a queda do coto. O principal cuidado é manter a área seca e limpar o local em que o coto se insere na pele, pois ali ocorre acúmulo de secreção. "Umedeça um cotonete em álcool a 70%, segure o coto, levante-o sem puxar e passe o cotonete ao redor", ensina a enfermeira-obstetra Márcia Regina da Silva, do Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo. "Use pouco álcool, para que evapore logo. Se molhar demais, seque a área com gaze. "Não tenha receio de manipular esse tecido que está secando, pois o bebê não sente dor. O cordão umbilical não possui nervos, tanto é que o obstetra faz o corte sem anestesia. "O recém-nascido chora porque o álcool é geladinho", explica Marisa Sassaki. Mas nada de aquecer esse líquido com a intenção de colocá-lo numa garrafa térmica. O álcool é inflamável e você pode provocar um acidente grave. Observe, ainda, se suas mãos estão geladas, o que também pode trazer desconforto ao pequeno. A limpeza deve ser feita, no mínimo, três vezes por dia, duas nas trocas de fralda e uma após o banho. Se o local juntar muita secreção, pode ser higienizado a cada troca de fralda. Lembre-se, porém, de limpar primeiro o umbiguinho e depois os genitais, para afastar o perigo de contaminar o coto umbilical com a mão suja de fezes. E por falar em banho, não é preciso esperar a queda do coto para lavar o bebê. O umbigo pode molhar, sem risco de "arruinar", como temem algumas mães. Coloque seu filho na banheira, lave o corpo dele e também o coto com água e sabão, depois seque com uma toalha e limpe com o álcool. O que é pura superstição Usar faixa, moeda, pedrinha, borra de café, nada disso deixa o umbigo mais bonito. Amaneira como o médico faz o corte também não interfere no resultado estético. "A aparência do umbigo é determinada pela genética e pelo organismo da criança", avisa a enfermeira- obstetra Márcia Regina da Silva. Além de abafar a área, quando o ideal é deixá-la arejada, os objetos podem estar contaminados e dar início a um processo infeccioso. Lembre-se de que o umbigo nada mais é que uma cicatriz, e a cicatrização varia de uma pessoa para outra. Geralmente o umbiguinho cai em até 15 dias. Mas, como o tecido ainda está cicatrizando, vale a pena manter a limpeza por 10 dias após a queda. Se demorar mais tempo, observe se a área ao redor está avermelhada, se há aumento da secreção e às vezes até odor forte. Estes são sinais de inflamação, por isso leve o bebê ao pediatra. O umbigo também não deve sangrar. No máximo, aparece um vermelhinho como um carimbo borrifado na fralda ou o cotonete da limpeza sai um pouco avermelhado quando o coto acabou de cair ou está quase caindo. Na maioria das vezes, não há problemas. O mais importante é não ter medo de limpar. Por meio desses e de outros cuidados diários, as mães começam a construir com seus filhos um elo muito mais forte e duradouro do que aquele rompido no parto. Para o futuro Antes desprezado no nascimento, o cordão umbilical passou a ser encarado como material nobre. No fim dos anos 80, cientistas descobriram que o sangue que circula ali é rico em células-tronco, antes só encontradas na medula. Com a capacidade de se transformar em qualquer tecido humano, elas oferecem potencial de cura para várias doenças. Surgiram serviços especializados em coletar e armazenar esse líquido. Bancos públicos, como o mantido pelo Instituto Nacional do Câncer, destinam-se a favorecer a localização de doadores quando houver necessidade de transplante de medula. Laboratórios privados conservam tais células para uso futuro pela criança ou por familiares. Os custos variam de R$ 4 mil a R$ 5 mil pela coleta mais uma anuidade de R$ 500 a R$ 600. A geneticista Lygia da Veiga Pereira, do Departamento de Biologia da USP e diretora da Cordvida, em São Paulo, esclarece dúvidas sobre essa nova tecnologia. Quais as aplicações das células-tronco? São usadas no combate à leucemia e a outros tipos de câncer tratados com transplante de medula, com algumas vantagens: menor probabilidade de rejeição, não exposição a fatores ambientais que comprometam sua viabilidade e obtenção simples a partir de punção no cordão sem necessidade de anestesia geral, como ocorre com a medula óssea. No futuro, o que poderá ser tratado com elas? Pesquisas mostram que as células-tronco podem regenerar órgãos como o coração. No Hospital Pró-Cardíaco, no Rio de Janeiro, elas foram empregadas para tratar 14 pacientes que sofriam de insuficiência cardíaca e nem mesmo conseguiam se levantar da cama. Foi um sucesso: 12 deles voltaram a ter vida normal, sem a necessidade de transplantes. Acredita-se que as célulastronco irão auxiliar no tratamento de diabetes, Parkinson, Alzheimer e ainda regenerar o tecido cardíaco danificado por infartos, fígados atingidos por hepatites e medulas lesadas por traumas. Por quanto tempo podem ficar armazenadas? A mais antiga amostra de células-tronco de sangue do cordão descongelada tinha 15 anos e estava intacta. Outros tipos de células humanas preservadas com sucesso mantêm-se viáveis por mais de 55 anos. Por isso, se processadas corretamente, as células resistem muito. Como é feita a coleta? Logo após o cordão ser cortado e a placenta expelida, o sangue é retirado por um profissional especializado ou pelo próprio obstetra por meio de punção na veia do cordão. O volume varia entre 70 e 200 ml. O líquido é transferido para uma bolsa e levado para o laboratório, onde deve ser processado em, no máximo, 48 horas. Extraídas as células-tronco, elas são congeladas em bolsas térmicas específicas, seladas e armazenadas em nitrogênio líquido a menos 196ºC. Vale a pena congelar o sangue do cordão umbilical? As células-tronco do cordão funcionam como um seguro biológico. Podem restaurar o sistema imunológico após tratamento de câncer, por exemplo. Se necessário, o paciente não terá que esperar um doador:trata-se de um material 100% compatível para uso imediato. Cristina Nabuco
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