Hérnia,o ponto fraco do abdômen
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aproximadamente 5,4 milhões de pessoas sofrem de hérnia no Brasil. Mas o que realmente significa essa doença? Trata-se de um 'ponto de fraqueza' ou uma abertura da parede abdominal causada por um enfraquecimento ou rompimento da musculatura do abdômen. Ocorre por defeitos congênitos ou adquiridos (esforço físico, traumatismos ou incisões cirúrgicas).
Se não for tratada, toda vez que o indivíduo fizer algum tipo de atividade intensa, o conteúdo abdominal (intestino e/ou tecido gorduroso) pode exteriorizar-se através dela e isso causa, além de um abaulamento na pele, desconforto e muito incômodo. "As pessoas com hérnia geralmente sentem dor quando fazem esforço. Contudo, é importante dizer que não é apenas aquele 'carregar peso'. São esforços comuns, como urinar ou evacuar, por exemplo", explica o médico Paulo Carvalho, doutor em cirurgia do aparelho digestivo pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e um dos criadores do recém-inaugurado Centro Avançado de Hérnia, em São Paulo, que atende pacientes com hérnia de todos os tipos - inguinal, femoral, umbilical e epigástrica. Quando pequena, ela talvez não apresente sinais externos, tirando o inchaço na área afetada. Agora, se junto com esse sintoma surgirem dores, acompanhadas de náuseas e vômitos, recomenda-se procurar assistência médica com urgência. O diagnóstico é feito por meio de exames clínicos. E a única forma de tratamento é cirúrgica. "O procedimento deve ser feito logo que o problema é detectado, porque a tendência é o quadro piorar. O melhor momento para operar é aquele em que o paciente está bem clinicamente", avalia Sérgio Szachnowicz, cirurgião do aparelho digestivo e também integrante da equipe do Centro Avançado de Hérnia. Se as devidas providências não forem tomadas, é provável que ocorram algumas sérias complicações. "A mais temida é o estrangulamento do intestino dentro da hérnia", diz o cirurgião Paulo Carvalho. Ele se dá quando as alças do intestino ficam presas no interior da hérnia e não recebem mais sangue. Com isso, podem necrosar, ou seja, apodrecer. "Essa é uma situação de emergência que exige ação rápida. Caso contrário pode levar até à morte." Cirurgia sem internação Na técnica de Lichtenstein, a mais tradicional para esse tipo de enfermidade, uma tela plana é costurada na parte de fora da parede muscular do abdômen. Para não sair do lugar, são necessários muitos pontos, aumentando o risco de lesão nervosa e muscular. Além disso, a pressão intra-abdominal força o material para fora, com o risco de soltá-lo, o que faria a hérnia voltar. A evolução no tratamento, no entanto, trouxe boas novidades para os pacientes. Uma delas é chamada de PHS (Prolene Hernia System) e utiliza uma tela tridimensional de polipropileno. Por meio desse procedimento, que passou a ser difundido recentemente no Brasil, a recuperação torna-se mais rápida, já que a anestesia é local. Outras vantagens: a incisão é pequena (tem cerca de 5 cm), a cicatriz quase imperceptível e o corte é fechado com ajuda de uma cola especial. E, poucas horas depois de operada, a pessoa pode voltar para casa. Por não precisar de internação, a cirurgia inclusive é mais acessível economicamente. "A forma convencional de tratamento também cura com eficácia, mas é preciso ficar cerca de 90 dias em repouso", explica o cirurgião Paulo Carvalho. Com o método mais moderno para a correção da doença, os índices de recidiva do distúrbio ainda caem para 0,1%, contra 35% nos procedimentos que usam técnicas clássicas. Uma longa espera Para se ter idéia do tamanho do problema na rede pública, o tratamento para hérnia lidera a fila de espera no Sistema Único de Saúde (SUS), segundo levantamento parcial recente feito pelo Ministério da Saúde, tendo como base 494 municípios brasileiros. Na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), referência no tratamento da doença, a lista - até o final de março - contava com 304 novos casos, com um prazo de atendimento de aproximadamente dois anos. "Por semana recebemos de 12 a 15 novos pacientes. Nossa capacidade de resolução atual é de cinco a seis. Não temos centro cirúrgico suficiente. Ou seja, sobram de oito a 10 casos toda semana. Isso faz com que aumente, cada vez mais, o tempo de espera", conta o cirurgião-geral Gaspar de Jesus Lopes Filho. Visando agilizar o processo de atendimento público, a Unifesp está criando o Projeto Hérnia, que tem como objetivo aumentar a área física dedicada exclusivamente à doença. "Esse trabalho vai ser apresentado para a diretoria do hospital e depois, através dela, vamos pedir recursos para a prefeitura e para o Ministério da Saúde. Há necessidade que se criem outros centros desse tipo porque a demanda é grande em todo o Brasil", diz Gaspar Lopes Filho. Crianças também têm Ao contrário do que possa parecer, não se trata de uma enfermidade que atinge apenas adultos. Segundo o pediatra e cirurgião Jaques Pinus (SP), do Hospital Albert Einstein e chefe do Serviço de Cirurgia Pediátrica da Unifesp, alguns tipos de hérnias são até mais comuns em crianças. "A inguinal aparece com maior freqüência em meninos, enquanto a umbilical, em meninas da raça negra", informa o médico. Assim como nos adultos, o único tratamento é cirúrgico. No entanto, os pais não precisam ter medo. A operação é feita ambulatorialmente e a recuperação é bastante rápida. Mesmo bebês prematuros podem ser encaminhados para o procedimento logo que saem do berçário. A hérnia umbilical infantil, no entanto, muitas vezes dispensa a cirurgia porque é capaz de se fechar espontaneamente. Os médicos costumam aguardar até aproximadamente os dois anos de idade, caso ela não seja grande ou apresente riscos de encarceramento. Se você desconfia que tem um 'ponto fraco' no abdômen, procure orientação médica o mais rápido possível. OS TIPOS HÉRNIA INGUINAL É o mais freqüente. Apresenta-se de forma direta ou indireta. No primeiro caso, origina-se diretamente na parede abdominal próxima à região inguinal (virilha). No segundo, acontece quando o testículo, durante a vida fetal, movese de dentro do abdômen para a bolsa escrotal - e esse trajeto pode deixar um ponto fraco na parede abdominal, levando à formação da hérnia. Na mulher, ela é menos comum, mas também pode acontecer quando o ovário migra para a parte interna da bacia. HÉRNIA UMBILICAL Muito comum em recém-nascidos, quase sempre fecha espontaneamente. "Se for pequena, resolve-se sozinha. Caso contrário, recomenda-se esperar até aproximadamente os dois anos, antes de operar", explica o cirurgião e pediatra Jaques Pinus, do Hospital Albert Einstein e chefe do Serviço de Cirurgia Pediátrica da Escola Paulista de Medicina (Unifesp). No entanto, o umbigo continua a ser um ponto fraco, o que pode provocar uma hérnia na vida adulta. HÉRNIA EPIGÁSTRICA Os músculos da parede lateral do abdômen se cruzam e criam uma estrutura fibrosa chamada de linha branca. Por essa estrutura passam os vasos sangüíneos que irrigam a parede abdominal. Esse trajeto, quando alargado, leva à hérnia. HÉRNIA FEMORAL Tem origem na região femoral (conhecida como raiz da coxa), orifício por onde passa artéria e veia femorais (vasos sangüíneos dos membros inferiores).
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