Processo de memória - esquecer para lembrar
Independente do objetivo, o número de pessoas preocupadas em otimizar o potencial da memória não é pequeno. Alguns pretendem passar no vestibular, outros almejam vencer as barreiras dos concursos públicos em busca de trabalho, ainda existem aqueles que querem somente fazer bem uma prova da escola. A questão é que todos apostam na eficácia da memória para atingir objetivos, sejam eles acadêmicos ou profissionais.
Apesar desse desejo de se ter uma boa memória e das várias receitas para se conquistar isso, o fato é que esse campo ainda não é plenamente conhecido e, então, muitas pesquisas e estudos têm sido feitos sobre os processos de memória. O processo de memorização é complexo, envolvendo sofisticadas reações químicas e circuitos interligados de neurônios. A partir desses estudos sabe-se que a memória é o meio pelo qual uma pessoa recorre às suas experiências passadas a fim de usar essas experiências no presente. A memória, de acordo com Crowder (1976 citado por Sternberg 2000), refere-se aos mecanismos dinâmicos associados à retenção e à recuperação da informação sobre a experiência passada. Os psicólogos cognitivos revelam que nesse processo mnemônico são identificados, segundo Sternberg (2000), três operações comuns: codificação, armazenamento e recuperação. Assim, na codificação, dados sensoriais são transformados numa forma de representação mental; já no armazenamento, a pessoa conserva a informação codificada na memória; e na recuperação o indivíduo extrai ou usa a informação armazenada na memória. Além disso, é sabido também, que o armazenamento de informação na memória acontece a curto e a longo prazo. O armazenamento a curto prazo refere-se à manutenção ou retenção da informação por alguns segundos, como quando se olha um número de telefone no catálogo e imediatamente após a discagem ele é apagado da memória. Já no armazenamento a longo prazo conteúdos que são guardados na memória permanecem durante longos períodos de tempo ou mesmo indefinidamente. Dentre esses estudos e informações sobre a memória, atualmente um aspecto, que em princípio parece controverso em meio a esse tema, tem sido discutido com afinco. Tal aspecto refere-se à importância do esquecimento para a memória. Assim, segundo revelou reportagem da Revista Época de setembro de 2004, para expandir a capacidade de processamento é fundamental saber se livrar do que não interessa, ou seja, esquecer o que não é importante. Se o espaço do cérebro é finito, então é preciso priorizar compromissos ou evitar o excesso de tarefas e atos automáticos. Caso uma pessoa lembrasse de tudo o que se passa com ela o tempo todo, sem dúvida ela teria comprometimentos em outros aspectos funcionais de sua memória. Essa pressuposição pode ser exemplificada pelo filme 'O Memorioso' em que o personagem nunca esquecia, recordando-se de todos os detalhes de tudo o que via o dia inteiro. Por causa disso, não era capaz de analisar as memórias ou compará-las com outras. O esquecimento, então, não permite o acúmulo de arquivos com informações inúteis que atrapalhariam o raciocínio avançar. Desta forma, aqueles desconfortáveis esquecimentos eventuais, habitualmente preocupantes, como não lembrar onde estacionou o carro no pátio do supermercado, seriam na verdade, positivos. Esquecer é fundamental para não ter memórias que nos azucrinam e impedem o aprendizado de coisas novas, como expôs o neurocientista Iván Izquierdo, professor da PUC do Rio Grande do Sul, em entrevista à Revista Época. Izquierdo acrescenta ainda que as pessoas esquecem para poder pensar e serem capazes de fazer fazer generalizações e reflexões sobre as informações obtidas. Somando-se a isso, de acordo com o Dr. João Roberto D. Azevedo, se não houvesse o processo de esquecimento nossa capacidade de adaptação ficaria prejudicada. Se nossa memória ficasse conservada indefinidamente, um comportamento considerado correto há 10 anos poderia ser incorreto na atualidade. O processo de esquecimento, desta maneira, nos ajuda na orientação do tempo. Além do esquecimento, algumas atividades também são importantes para estimular e potencializar a memória. O estilo de vida ativo, com atividade física feita com regularidade, uma dieta saudável, diminuição do estresse e ansiedade são fundamentais para a manutenção da memória. Os exercícios cerebrais, chamados por especialistas de 'Fitness' cerebral ou 'Neuróbica' também são muito bons e até prazerosos. Esses exercícios visam a estimulação sensorial, olfato, paladar, tato, visão e audição, através da quebra da rotina, como por exemplo, escovar os dentes com a mão contrária à dominante, ou mesmo fazer um trajeto diferente para ir ao trabalho ou à escola. E finalmente, acrescentando a esses exercícios, a simples leitura desponta como a melhor forma de estimulação da memória. Iván Izquierdo alerta que nenhuma atividade mobiliza tantas variedades de memória quanto a leitura. A leitura, segundo esse neurocientista, põe em prática a memória das letras, a memória verbal e a memória da imaginação. Como se pode perceber, apesar da complexidade dos processos cerebrais, não é difícil deixar o cérebro em forma.
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