DOIS TOQUES

Ofício de poeta



* Por Ilmar Antônio Auth
Conheci o poeta e trovador Nabuco Portes num momento inusitado da minha tempestuosa vida. E talvez inusitado na vida dele também, porque depois de nos conhecermos melhor chegamos a uma conclusão de que o estilo de música e seus degraus paralelos eram tão equidistantes, que parecia inadmissível que continuássemos com o nosso relacionamento de amizade. Por acaso, acabei fazendo parte de um jantar em que a atração era justamente ele e alguns amigos e companheiros que reuniram se na minha cidade para um encontro de trovadores e declamadores do estilo gauchesco, e que, justamente não era e não é o meu forte, apesar de admirar odes poéticos de toda e qualquer natureza.

Como um menestrel moderno, mas enraizado na tradição, o mestre Nabuco, se assim posso lhe chamar em 25 anos de carreira escreveu vários livros de poesia como Alma de Campo, Reponte, Grito de Alerta e Tropel de Guapos, entre outros. Na sua maioria contando causos destacando os ataques covardes dos seres humanos a natureza, a paixão do homem e da mulher, as causas sociais, a religiosidade, os desenganos políticos e o povo esmagado pelos caminhos tortuosos da classe rica que só busca o vil metal, mesmo que seja para transformar o seu irmão em comedores de migalhas de pães sob as mesas juntamente com os cães esfaimados.

Num de seus versos mais bonitos da poesia intitulada Cão Faminto, gostaria de destacar alguns frangalhos aqui neste espaço em que tenho orgulho de ter sido convidado a escrever algumas letras: “...ouvi um pai de família, desprovido até de nome, contando do filho a fome, e a prostituição da filha, com outros deixara a trilha, não suportando a  miséria, lá foi se a prole gaudéria, viver na periferia, no ofício de boia fria, c’um espinho em cada artéria...” Portador de frases de efeitos como uma claraboia numa mina abandonada, li também em um dos seus livros com um efeito cataclísmico para os corações desafortunados: “...se os meus poemas só falarem de flores não estarei traindo minhas dores?”

Nesta obra que agora está nas livrarias, acredito que todas são ímpares na sua beleza e intocável no sentido poético, destaco Ao Meu Filho, Eis o Brasil e de Rondas e Pastoreios que reúnem três assuntos diferentes. No primeiro, o pai já na beira da viagem sem volta esperando ser levado pelo Salvador Eterno aconselha o seu herdeiro a seguir principalmente o caminho do bem. No segundo poema, tece críticas ferinas e mostra a realidade do nosso país afirmando que o Brasil é o país do samba e do carnaval, deslumbrando o mundo com o nosso futebol, mas também, num sentido de ignorância contrito não sabe cantar o Hino Nacional. No outro, já citado em outros poemas, o êxodo do agricultor ou campeiro, transformado em papeleiro aos arredores da cidade, curtindo uma escravidão mesmo estando liberto.
Boa leitura.

* Ilmar Antônio Auth é escritor em Santo Antonio do Sudoeste e autor do livro “ – Qual é a sua, bicho?"

 

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