Acidente na Estação Antártica
Mario Eugenio Saturno 

O Brasil é um país grande, mas que tem a ambição dos pequenos. A julgar pelo que se gasta em algumas áreas estratégicas, como a espacial, por exemplo. Se compararmos com todas as nações espaciais, perdemos feio. Não, não me refiro somente aos valores absolutos, falo do relativo, porcentagem do PIB. 


E nossa nação não é mais pobre, já é a quinta economia e o governo arrecada cerca de 40%. Isso me lembra que, quase cem anos antes de Tiradentes, os paulistas quiseram rebelar-se por causa dos “quintos do inferno” (20% de imposto da Coroa Portuguesa).
 
O Brasil é um país continental, a aventura espacial deveria correr em nossas veias, como corre nas outras nações do BRICS, semelhantes à nossa. Lembro-me que a 25 anos atrás dedicávamos com afinco para construir nosso satélite SCD-1, que completou 19 anos no último 9 de fevereiro. Para lançá-lo, fomos à Base de Edwards, na Califórnia, onde descobri o perigo que essa atividade representa. Tenho na memória claramente o técnico da empresa explicando os procedimentos. Marcou-me a imagem dos alarmes luminosos, verde, tudo bem; amarelo, perigo, tenha cuidado; vermelho... bem, talvez nem dê tempo para correr...
 
O Brasil também tem pretensões em terras no Continente Antártico. E, agora, descobrimos que é uma atividade muito perigosa também. O INPE tem grande atuação no Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), presente na Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) desde o início.
 
Assim que o incêndio começou na Casa das Máquinas, os dois técnicos do INPE e outros pesquisadores saíram da base e foram para o módulo utilizado para pesquisas na área de Ozônio e para o módulo Meteoro, instalações do instituto. Esses módulos ficam próximos e não sofreram danos. O INPE ainda tem o módulo Ionosfera que fica a cerca de 300 metros da estação, enquanto o módulo da Alta Atmosfera, onde estão um radar e instrumentos ópticos, fica a um quilômetro de distância. O INPE ainda tem ainda o módulo Criosfera, instalado a 500 km do Pólo Sul geográfico (na latitude 85°S, a Estação está na latitude 62°S, na borda do continente).
 
Estavam em andamento atividades que preparam as instalações para enfrentar o próximo inverno. Com o acidente, não foi possível tomar nenhuma ação para proteger os equipamentos. Os pesquisadores agora avaliam o retorno à Ferraz para evitar danos à instrumentação, que está sem energia, e dar prosseguimento aos projetos de pesquisas.
 
O INPE possui três projetos na Estação. O primeiro é “A Atmosfera Antártica e Conexões com a América do Sul”, em que estuda a Alta Atmosfera Neutra, Monitoramento da Ionosfera, Ozônio e Radiação UV, Meteorologia e Gases Minoritários. O segundo é o “ATMANTAR”, seqüência aos projetos do Ano Polar Internacional. E o terceiro é o “Monitoramento da alta atmosfera na região Antártica e na América do Sul”. Colaboram com o INPE, instituições nacionais e estrangeiras.
 
*Mario Eugenio Saturno (mariosaturno.blog.com) é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano.
Ler 635 vezes
Entre para postar comentários
Top