Seg, 29 de Março de 2010 15:42
O governo alemão tem uma ambição pedagógica: juntar o novo e o velho. Literalmente.
As escolas estão tentando trazer as chamadas "testemunhas do tempo", para que os alunos possam ver e ouvir, na prática, o que leem nos livros de história.
Sendo assim, no dia 25 de fevereiro, a escola em que meu "pai" é diretor promoveu um encontro com Sally Perel, um senhor alemão que, aqui na Alemanha é famoso por um livro que escreveu, chamado Ich war hitleryoung Salomon, que conta a história de Sally durante a Segunda Grande Guerra.
É bastante difícil traduzir o título para português, porque "hitleryoung" significa uma posição social, uma ideologia. Mas como o livro todo, o título é autobiográfico: Eu fui hitleryoung Salomon.
Da palestra, e da conversa que tive com Sally depois disso, pude entender um pouco de tudo que ele passou, para mim tão interessante, tão apaixonada sou pela história da segunda guerra.
Sally Perel nasceu na Alemanha, em uma família tradicional de judeus.
Durante sua infância, a família mudou-se para a Polônia, onde viviam em um gueto controlado pelo exército alemão.
Devido aos horrores e ao perigo da guerra, a família decidiu mandar os dois filhos homens para a Rússia. Lá estudaram por dois anos.
Nessa época, Hitler iniciou uma ideologia que ainda hoje existe aqui, a do sangue alemão. Todos que tivessem sangue puro alemão deveriam viver na Pátria-mãe, a Alemanha. Dessa forma, uma polícia especial andou pelo mundo, procurando jovens alemães para trazer de volta, se fossem bons o suficiente, ou para matar, caso o contrário.
Sally foi encontrado na Rússia, e quando questionado sobre sua identidade, viu-se em um conflito interno. Quando deixou a Polônia, seu pai disse-lhe que nunca esquecesse sua religião, que nada poderia ser mais importante que seu Deus, e que ele nunca deveria negar isso. Por outro lado, sua mãe recomendou que fizesse qualquer coisa para manter-se vivo.
Decidiu ouvir sua mãe, e mentiu aos oficiais alemães que era Joseph Perel, um jovem alemão que vivia na Rússia, como estrangeiro. Acrescentou, que havia perdido família e documentos durante a guerra, e então o trouxeram de volta para a Alemanha.
Nessa época, as tropas alemãs haviam capturado o filho de Stalin, e precisavam de alguém que falasse alemão e russo para traduzir as conversas com esse e outros prisioneiros.
O comandante dessa tarefa não tinha filhos, mas amava Joseph como se fosse um, e então decidiu mandá-lo para o interior da Alemanha, onde não correria tanto perigo de vida. Assim, com 16 anos de idade, Joseph entrou na escola para jovens alemães, e tornou-se um hitleryoung.
Com a guerra chegando ao fim, e Hitler vendo-se sem homens o suficiente para lutar, resolveu convocar os jovens com menos de 18 anos e os homens velhos para lutar em batalhas menores, uma vez que os homens em idade certa estavam nos grandes fronts. Sally foi capturado em uma batalha como prisioneiro de guerra pelo exército norte-americano.
Provando, com a circunscisão, que era judeu, foi libertado e mudou-se para a Palestina. Lá viveu por 20 anos, e escreveu seu livro.
Hoje, Sally tem 84 anos, e anda pela Alemanha, dando depoimentos como os que ouvi.
Ver uma "testemunha do tempo" tão de perto, sempre nos faz pensar um pouco sobre como levamos a vida, uma vez que somos nós também testemunhas do nosso tempo.
Estou, agora, sendo testemunha das maravilhas que os países da Europa oferecem, e darei meu depoimento para vocês quando voltar.
Abraço,
Andressa
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